sexta-feira, 22 de abril de 2011

A little Jazz...


Um dia desses, vi que alguém no Orkut havia se filiado a uma comunidade cujo nome é “Saudade daquilo que não vivi”. Para mim, a ideia do título desse grupo tem a ver com o que eu sinto quando penso naquela época em que pessoas como Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Chet Baker e tantos outros estavam na ativa. Nesse ponto, posso afirmar com segurança que tenho um espírito das antigas, uma alma que gosta desses elementos mais clássicos e que preza por uma certa maturidade, se assim posso dizer.
Digo isso pois, querendo ou não, gostar desses clássicos e de muitos outros requer amadurecimento, uma certa sofisticação, que creio não ser algo relativo tão-somente à idade (até porque já vi gente bastante jovem que tinha por esses artistas uma sensível admiração). O fato é que essa sofisticação nasce de um conhecimento, de uma experiência musical. Está, em suma, ligada a uma visão mais dilatada acerca da música em si.
É necessário caminhar por entre as florestas dos grandes acordes e conseguir atingir um certo patamar epistêmico para não ver nessa Old School uma velharia sem graça, como muitos creem falsamente. É necessário, nessa perspectiva, ser apresentado devidamente a esses clássicos para saber apreciá-los em sua completude. Por isso, felizes são aqueles, penso eu, que são apresentados desde tenra idade a esses docentes musicais... 
Como eu costumo crer, devagar, nos trancos e barrancos da vida, eu fui adquirindo (de fato, ainda estou) uma consciência musical mais ampla. Se antes eu não ligava muito para certas “tonalidades”, hoje vejo meu ser se comover sensivelmente diante de certos acordes, por isso falei em maturidade antes.
Eu não tive formação clássica, mas as coisas foram chegando até mim sem grandes atritos, e eu fui paulatinamente iniciando a evolução do meu gosto musical. Pelo menos para o meu caso, essa é a ideia: penso que estou começando a conhecer um pouco mais das coisas e fico feliz por tal fato. E como este é um espaço em que gosto de expor algumas coisas de que gosto, aqui estou, com o intuito de trazer um pouco de Jazz ao meu blog.
Não acho necessário pontuar muito acerca da necessidade do respeito aos diversos gêneros musicais que músicos por todo lado constroem. Quem me conhece sabe que eu prezo a tolerância e o respeito como valores fundamentais. Embora eu não goste nem um pouco de sertanejo universitário, axé, pagode, pop Gaga-Spears e coisas do gênero, eu realmente procuro respeitar quem gosta. Afinal, o mundo é amplo e há lugares para todos, certo? Mas, se posso falar de mim, acredito que, por ora, ser fã do velho e bom Rock, ser apreciadora da melancolia visceral do Grunge, da beleza abissal que brota das profundezas da Música Erudita, ser uma entusiasta da beleza da MPB e do Samba de Raiz, ser uma amante da “alma” sexy do Soul (que o digam pessoas fantásticas como o gênio Marvin Gaye), me comover com o Jazz e sentir aquele tom cinza descompromissado do Blues tingir meu coração... sentir e apreciar tudo isso está de bom tamanho para mim. Pensando nisso, por achar que outras pessoas podem se interessar por algumas coisas que aqui estão, deixando as pontuações acerca das minhas preferências musicais, pretendo hoje trazer ao Horas Sempre Absurdas dois artistas, cuja obra é fundamental para se compreender o grande edifício do Jazz.
Assim, sem mais delongas e sem tons educativos ou acadêmicos, gostaria de apresentar um pouco do Louis Armstrong e da Ella Fitzgerald para aqueles que porventura fazem nesse blog uma parada em dias de tormenta (ou não).
Meu intuito aqui é tão-somente uma breve apresentação de algo que eu penso ser muito interessante. Espero que quem for até o fim desse post possa ter uma ideia positiva acerca desses mestres do Jazz, pois eles são, indiscutivelmente, parte fundamental da essência desse ritmo encantador.

Considerado como a personificação do Jazz, Louis Armstrong ficou famoso tanto por sua voz exuberante, como por seus dotes como solista, com seu trompete. Eu até pensei em entrar em certos pormenores da vida desse grande músico, contudo deixo as informações mais profundas acerca da vida deste grande gênio por conta da curiosidade de cada um. Há sites que possuem um acervo riquíssimo acerca de sua obra, e ao final pretendo deixar o link do Wikipédia, para aqueles que ficarem com uma pulguinha atrás da orelha.
Embora eu não vá entrar na biografia desses músicos, vale salientar que, assim como a vida de muitos grandes artistas, a vida de Louis foi bastante conturbada, sobretudo sua infância. Contudo, ele conseguiu vencer as dificuldades daquela época e se tornou um dos maiores músicos de Jazz que nosso planeta já viu.
Se sua infância foi imbuída de fatos tristes, sua maturidade foi dotada de grandes conquistas. Nesse sentido, vale lembrar o ano de 1964, quando Louis atingiu um grande recorde de vendas. Sua música ficou em primeiro lugar no Top 10 da Billboard, fazendo com que ele, aos 63 anos de idade, se tornasse o artista mais experiente a conseguir tal feito, destronando os Beatles, que estavam naquele momento em 1.º lugar.
Antes de morrer, em 1971, Louis andou por vários continentes, divulgando sua obra, o que lhe deu a alcunha de "Embaixador Satch".
Fortemente influenciado por Martin Luther King, quanto ao tipo de música que tocava e em relação às letras, que eram muitas vezes sobre o racismo e a necessidade de acabar com esse preconceito, o grande Satch construiu uma obra em que a beleza, a crítica e a reflexão social davam as mãos para erigir pura arte.
Em 6 de Julho de 1971, aos 69 anos de idade, Louis Armstrong morreu de ataque cardíaco, em Corona, Queens, Nova Iorque – 11 meses após tocar o seu último solo na Sala Imperial do Waldorf Astoria. As suas últimas palavras foram: “I had my trumpet, I had a beautiful life, I had a family, I had Jazz. Now I am complete.” (Eu tive o meu trompete, uma vida linda, uma família, o Jazz. Agora estou completo.) E podemos acrescentar que o patrimônio musical da humanidade é mais completo e muito mais rico por conta desse gênio que viveu entre nós.
Durante sua vida, Armstrong tocou com inúmeras bandas e com grandes artistas, participou de filmes, criou discos majestosos sozinho e com outros grandes nomes. Nesse sentido, um disco com uma grande diva me faz trazer à tona aqui Ella Fitzgerald, a artista que eu também quero introduzir.
Não abordarei sua biografia, até porque há muita informação muito bem disposta por aí acerca dessa grande Diva. Mas, vale a pena salientar, para aqueles que não a conhecem muito bem, que esta grande cantora, Ella Jane Fitzgerald (25 de abril de 191715 de junho de 1996), ficou conhecida como a “Primeira Dama da Canção” (em inglês: First Lady of Song) e “Lady Ella”.
Notória pela pureza de sua tonalidade, sua dicção, fraseado e entonação impecáveis, bem como uma habilidade de improviso “semelhante a um instrumento de sopro”, Ella Fitzgerald é uma referência mundial para todos que gostam de boa música.

Depois dessas breves apresentações, deixo para todos que por aqui passarem, na voz do fantástico Louis, You go to my head. Escrita em 1938, a composição de John Frederick Coots e letra de Haven Gillispie é uma verdadeira conjunção de uma letra altamente sofisticada atada a uma harmônica e elegante estrutura musical. É, sem sombra de dúvidas, uma grande joia do Jazz. Espero que gostem.  Aliás, prestem atenção com carinho no solo inicial dessa peça musical: é I-N-C-R-Í-V-E-L!


Dando continuidade, deixo, na voz de Ella Fitzgerald, Cry me a river, uma canção popular, escrita por Arthur Hamilton e lançada em 1953.
Essa bela balada jazzy blues foi originalmente escrita para Ella Fitzgerald cantar no filme cujo cenário era a década de 1920, Pete Kelly's Blues, que estreou em 1955. Mas a canção foi cortada da produção. Então, Fitzgerald gravou a composição e a lançou em Clap Hands, Here Comes Charlie!, em 1961


E para fechar com verdadeira chave de ouro, deixo Summertime na voz desses dois gênios, sobre os quais tentei pincelar minimamente algumas coisinhas. Só a título de informação, essa canção foi composta por George Gershwin, para a ópera Porgy and Bess, de 1935. A letra é de DuBose e Dorothy Heyward e Ira Gershwin.
Com vocês, Summertime nas vozes de Louis e Ella. Enjoy it! =)


Para aqueles que desejam aprofundar mais a respeito desses dois grandes nomes do Jazz, seguem aí os links do Wikipédia:
 
Isso é o que dá bons papos na madrugada 
(são verdadeiros motores propulsores de reflexões). 
É tudo culpa deste mundo Almost Blue:
"You intoxicate my soul with your eyes"...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O Homem que Contempla, de Rainer Maria Rilke

Hoje, sei lá por que razão, bateu uma saudade grande de certos poetas que eu costumo ler. Pensei em Rimbaud, em Drummond, em Baudelaire, em Pessoa, mas não eram esses os poetas que eu queria encontrar... Então, me lembrei da poesia de Rilke. Fiquei pensando onde eu poderia arrumar algumas poesias dele, uma vez que estou com todos os meus livros desse belo poeta por aí... Eureka! Internet, é claro! Eis, então, o fruto da procura: O Homem que Contempla, um poema intrigante que eu desconhecia: uma bela e reflexiva epifania em verso, se assim posso dizer...
Para aqueles que não conhecem Rainer Maria Rilke, em breve pretendo reler certas passagens de suas belíssimas cartas e poemas e tentar trazer algumas gotas de sabedoria poética para as minhas Horas Sempre Absurdas... Acho interessante postar algumas peças literárias dele, pois elas são, indiscutivelmente, fascinantes.
Lembro-me de uma aula com uma das maiores conhecedoras de lírica do nosso país quando ela falou de Rilke:  "depois dele, nos resta o silêncio "... Pegando o gancho da grande Professora Goiandira, eu acrescento com referência à poesia que eu escolhi nesta noite: depois dele, com o devido respeito a outros grandes poetas, só nos resta contemplar... O fato é que, depois de tanta leitura pesada nas últimas semanas (que o digam as provas da FD), é natural um grande saudosismo em relação a um prédio bonitinho do Campus II, da UFG. Sim, deu saudade da Letras, o lugar onde eu tive a chance de conhecer muitas grandes figuras...
Rainer Maria Rilke (1875-1926)










Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anônimos.







Com vocês, uma tradução portuguesa de   "O Homem que contempla  "



Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior. 


Rainer Maria Rilke, In   "O Livro das Imagens  "
Tradução de Maria João Costa Pereira

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Niccolò Machiavelli... no Inferno?

Um dia desses, sem grandes pretensões, fui fazer uma pesquisa na área de Ciência Política, a fim de pensar um pouco em um seminário que em breve, junto a mais alguns colegas, terei de apresentar. A priori, nosso objetivo é tentar apresentar Montesquieu, o autor de Do Espírito das Leis, fugindo um pouco àquela ideia de enquadramentos strictu sensu. Assim sendo, além de pensar naquele a quem muitos creditam o nascimento da ideia da tripartição dos poderes, iremos também pensar em autores que foram extremamente importantes para que o solo da teoria política fosse sedimentado, a fim de que outras construções ao longo do tempo se firmassem. Um jogo dialético e complicadinho, eis aí a nossa missão.
Alguns colegas falarão de Rousseau; outros se deterão em Hobbes; alguns, por sua vez, pensarão no inglês John Locke; e um outro grupo irá pensar em uma figura que eu acho extraordinária no campo do pensamento político: Maquiavel - algo que me faz voltar à origem da minha reflexão da madrugada. 
A questão é que posso dizer que eu estava fazendo uma pesquisa quando encontrei, na Biblioteca Central da Universidade Federal de Goiás, um livro um tanto quanto peculiar, que muito me chamou a atenção: Maquiavel no Inferno.
O título, é claro, mexeu comigo desde o início. Afinal, o que o autor quer apresentar em um livro como esse? Seria este livro apenas uma ficção, a fim de chamar atenção para esse pensador que, ao longo do tempo, teve imputado à sua pessoa um forte preconceito, a ponto de sua designação pessoal se tornar um adjetivo para a história?
Como diz a pequena orelha desta obra, Maquiavel e maquiavélico já foram incorporados à linguagem de todos os dias, sendo que tanto o nome quanto o adjetivo cristalizaram-se de tal modo que poucos procuram entender qual é a importância desse pensador. Tal fato mostra que houve uma difusão única da obra e do pensamento de Maquiavel, contudo, mais do que isso, esta circunstância encobre uma questão: o generalizado desconhecimento da obra e do próprio pensador, que é, sem dúvida, um dos maiores pensadores políticos da história moderna.
Afinal, quantos param para pensar acerca do "mito" do maquiavelismo? Quantos já tentaram pensar acerca do porquê de Maquiavel ter dado origem a um termo pejorativo e “grudento” por toda a posteridade? Com certeza, houve aqueles que pensaram acerca desse fato, mas isso não encobre a questão de que muitos passam por cima dessas “expressões” sem ao menos fazer dançar o tico e o teco que vivem em suas cabeças.
Ora, em pouco tempo, dois anos para ser exata, a obra O Príncipe estará completando 500 anos. Afinal, foi em 1413 que Maquiavel, em sua Florença, começou a pensar acerca desse texto fantástico. Está aí uma oportunidade para pensarmos nas consequências e no valor dessa grande obra.
Chamem-me do que for, mas para mim Maquiavel apresentou em O Príncipe uma visão extraordinariamente realista de seu tempo (e, por que não dizer, do nosso?). Cruel? Maldoso? Impiedoso, simplesmente por expor sua visão realisticamente? Hmmmm... acho que não. Ao escrever aquela obra, Maquiavel não estava, conforme muitos pensam, dando a chave para o poder se instaurar de um modo “maquiavélico” e brutal. Para além de suas "dicas" ao Príncipe, ele nos deu a chance de pensar acerca do poder de nossos e de outros governantes e de como este poder pode se estabelecer, concedendo-nos a oportunidade de conhecer os mecanismos pelos quais o mesmo é estabelecido. 
Ora, se o conhecimento nos dá a chave para que possamos escolher os nossos caminhos, não foi a obra de Maquiavel um presente para as pessoas que realmente o leu? Eu penso que sim... Aliás, penso que, para aqueles que realmente o leu, a leitura foi um divisor de águas. Entretanto, para aqueles que só viram o que estava por cima, o texto não passou de algo diabólico e cruel. Essa, aliás, é a gênese de muitos problemas de interpretação e de preconceitos ao longo de mais de 5 séculos: leituras rasas que só captam no texto apenas o que está em sua superfície, sem tentar pensar o que habita a sua profundidade...
Não vou ir muito além com essas discussões, primeiro, porque eu teria de me deter em outras questões maiores, e, segundo, porque o tempo de que disponho não me permite grandes devaneios filosóficos... De qualquer modo, ante a ideia de muitos que quiseram colocar Maquiavel no inferno, fica aqui a minha defesa desse grande pensador que amava a sua Florença, a sua Itália fragmentada... Aliás, o livro é muito bom para se pensar no inferno habitado por esse pensador "maldito".
Pensando nessa verve maldita, fica a minha saudação: grandes são muitos malditos... 
E, para fechar minha reflexão, exponho uma ideia que muito me agrada: os príncipes, no final das contas, somos nós... os grandes interlocutores da obra de Niccolò Machiavelli.
Vida longa a todos nós, príncipes e malditos...


Que saibamos ir além da mera superfície para apreciar as coisas...

A Justiça Mítica entre nós: Uma pequena visão de Maquiavel...


[Reformulação de uma passagem do livro Maquiavel no Inferno, de Salvatore de Grazia]

Certa vez, Maquiavel escreveu um discurso para um alto funcionário que seria lido por ocasião da posse solene de um novo magistrado. Começando por uma fábula, narrada nas Geórgicas de Virgílio e nos Fastos de Ovídio, o discurso (identificado pelo título de “Alocução feita a um magistrado”) fala da primeira época da humanidade, quando os homens eram tão bons que os deuses não hesitavam em descer dos céus para se reunir a eles.
Contudo, à medida que o vício se alastrou pela terra, as divindades foram voltando aos poucos para a morada celeste. A última a ir embora foi a Justiça, afinal acossada pela fetidez. Mas, relutando em abandonar os homens, a Justiça continuou esporadicamente – às vezes aqui, às vezes ali – a pousar na terra.
Depois de louvar a Justiça por seus benefícios aos reinos e repúblicas, Niccolò Machiavelli transforma a divindade numa virtude: “Esta virtude é a que, dentre todas as outras, apraz a Deus.” Ele cita algumas linhas do Purgatório de Dante, dizendo serem estes versos áureos e divinos que permitem ver o “quanto Deus ama a justiça e a piedade”. E termina, então, com um apelo ao novo juiz e à assembleia, para que sejam justos e imparciais a fim de que “a Justiça volte a habitar nesta cidade”. [... p. 69-70]

Fazendo das divagações de Maquiavel um pouco das minhas reflexões e viagens, deixo aqui meus votos para que realmente a Justiça, ainda que concebida em termos literários e, por que não dizer, míticos, faça parte de nossas vidas e de nosso tempo. Afinal, mais de 500 anos depois dos escritos de Maquiavel, ainda precisamos (e muito) dessa divindade, dessa virtude entre nós.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A fluidez dos acontecimentos...

“Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas”
“Este mundo (...) foi sempre, é e será sempre um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”
“A oposição produz a concórdia. Da discórdia surge a mais bela harmonia”
Heráclito de Éfeso
Fragmento de A Escola de Atenas, com foco em Heráclito, de Rafael (1509-1510)


Não raro, todos nós passamos por situações complicadas em nossas vidas. Há determinados momentos em que boa parte daquilo que damos como certo se transmuta em algo errado. Assim, temos a aparência de que, para os problemas que faceamos, não existe nenhum tipo de solução. Crendo nessa ideia, comumente muitos se desesperam; outros acabam complicando, por meio de entradas em vias tortas, ainda mais suas dificuldades; outras pessoas acabam fatalmente entrando em depressão... Raras são aquelas que conseguem facear grandes problemas com grande serenidade e paciência. Por que isso, se afinal, de uma forma ou de outra, o mundo concorre de uma forma muito interessante para a resolução das coisas? Por que isso, se temos uma certa consciência de que sempre há problemas em nossa vida e de que, de um modo ou de outro, suas soluções sempre vêm, ainda que nem sempre de acordo, estritamente, com aquilo que queríamos?

Creio não ser a única a notar que as coisas fluem, que elas passam, mesmo que ainda incorra no erro clássico de queimar neurônios à toa com alguns problemas que me visitam. O fato é que essa ideia da fluidez dos elementos no mundo dos fenômenos é algo não muito novo... Talvez por isso eu me sinta tão mal quando perco alguns minutos surtando com algum problema.

Heráclito de Éfeso, considerado por muitos como o pai da dialética, foi um filósofo grego que viveu entre aproximadamente 570 e 470 a.C. Participante do contexto da filosofia que surgiu antes de Sócrates, o filósofo que via no fogo o elemento essencial do mundo notou algo que hoje em dia muitos de nós percebemos e achamos até comum: a fluidez das coisas.

Diferente de muitos que haviam percebido tal dado da realidade, Heráclito problematizou essa questão da mutabilidade das coisas de uma forma inédita. Partindo de uma ideia diferente daquelas levantadas por seus "colegas" pré-socráticos, Heráclito afirmava que tudo era movimento e que nada podia permanecer estático. Está aí formulado o famoso Panta Rei heraclitiano como princípio das coisas.

Na perspectiva desse filósofo considerado por muitos como “obscuro”, como ponto de partida no mundo existe o devir, a mudança, algo que se manifesta em todos os elementos do fenômeno, sendo visto como uma alternância entre contrários. Assim, tudo no mundo estaria em constante mudança: os entes passariam de um estado a outro constantemente, apresentando a manifestação da guerra entre os opostos, uma guerra que traduziria a realidade de tudo aquilo que podemos dizer que é ou que se manifesta em nosso mundo.

Panta rei os potamós (do grego πάντα ῥεῖ ), traduzido como "tudo flui como um rio", é o célebre aforismo cuja tradição filosófica subsequente identificou sinteticamente como o pensamento de Heráclito e como o tema do Devir. Nessa perspectiva, tudo é considerado como um grande fluxo perene, no qual nada permanece o mesmo, pois tudo se transforma e está em contínua mutação. Assim, o Ser se identifica com o Devir e suas transformações no tempo.

Heráclito sustenta que só a mudança e o movimento são reais, e que a identidade das coisas iguais a si mesmas é ilusória; dessa forma, tudo flui (panta rei). E o panta rei, nessa perspectiva, é uma consequência de polemos (guerra, conflito), que reina sobre tudo.

Pensando nas reflexões de Heráclito e trazendo um pouco dessa filosofia para o mundo prático, acredito que é importante pensar um pouco nessas ideias e lembrar que, por mais que sejam antigas e que até mesmo tenham sido solapadas por outros princípios, essas concepções têm ainda algo a nos dizer. Afinal de contas, é falsa a ideia de que os acontecimentos em nosso mundo estão inseridos em um constante Devir? O que podemos taxar como imutável na nossa vida? Não que eu não acredite que não exista algo que realmente permanece nesse mundo, até porque não sou tão cética assim, mas é inegável, diante daquilo que vemos, a força da mudança das coisas. Assim sendo, posso dizer que acredito que a vida tem muito dessa constante batalha que nos deixa face a face com determinados entes extremamente volúveis e mutáveis. A questão é: como encarar isso? Como encarar a mudança daquilo que pensamos ser perene? Para questões desse cunho, acho que a filosofia de Heráclito é capaz de nos dar uma chave. É a única chave? (poderiam me perguntar). Creio certamente que não, mas é uma chave interessante que pode nos ajudar a facear essas mudanças de um modo mais amplo.

Arthur Schopenhauer, um filósofo alemão criador de alguns aforismos muito interessantes, diz que o sofrimento é regra nesse mundo. Ele fala que nossos momentos de felicidade são mínimos, diante da infinidade de problemas que temos. Não sei se creio completamente no que ele diz. Acho que felicidade no sentido utópico do termo não existe. Talvez esse vocábulo, com essa acepção, devesse até ser, por que não, revisto. A questão é que concordo com ele quando diz que as situações são mutáveis e que muitas vezes a impressão que se tem é de que o mundo é muito mais sofrido do que qualquer outra coisa. O fato é que uma hora você está lá em cima, voando alto. Entretanto, outra hora (e às vezes com uma frequência maior), é necessário fazer uma pausa (pois a vida muitas vezes nos obriga a isso), e aí as coisas deixam de ser tão fantásticas como eram.

Assistindo a um episódio de um seriado, fiquei pensando na frase de uma personagem: “não há um pássaro que mesmo voando muito alto não tenha necessidade de descer um pouco em um determinado momento”. Creio que esse pensamento tem muito a dizer...

Como salientam inúmeros pensadores, inclusive os dois que eu já citei, é necessário conhecer os elementos negativos para apreciar os positivos. Normalmente, só damos valor às coisas boas, se tivermos as ruins como companheiras em algum instante. Só percebemos a validade de algo, se não a temos por perto. E isso é bom... Essa guerra entre contrários pode nos levar a sínteses interessantes – basta apenas estarmos atentos para apreendê-las.

Como já foi dito, há momentos em que as coisas deixam de ser tão fantásticas como eram. E esse não deixa de ser um movimento natural no nosso mundo. Em tudo há a possibilidade de isso ocorrer: no trabalho, na vida pessoal, na vida acadêmica, com nossas crenças, com nossos sentimentos. A questão é encarar as mudanças com naturalidade e procurar meios para internalizá-las do melhor modo possível. A paciência e a tal da serenidade já mencionadas podem ser essenciais para facear esses processos tão caros à nossa própria mudança pessoal. Afinal, querendo ou não as coisas não deixarão de mudar só porque assim o queremos. O caminho, então, é aprender a lidar com a louca dinâmica do nosso mundo fenomênico. Se a fluidez surge como regra, nossa capacidade de entender isso precisa estar (mais) desperta, para que não soframos tanto. Se soubermos lidar com os movimentos da vida, o Panta Rei pode nos ensinar muito. Os conflitos podem engendrar grandes crescimentos; basta que tenhamos um pouco de sabedoria diante dos acontecimentos para enxergar um pouco além.