domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pinceladas breves sobre a vida de um gênio :: Vincent van Gogh

Autorretrato com o chapéu de palha (Paris 1887)
"Experimento uma terrível clareza em momentos em que a natureza é tão linda. Perco a consciência de mim mesmo e os quadros vêm como em sonho.” Vincent Van Gogh

"Criar arte queria dizer para ele não menos que pintar a vida; não a mera realidade, mas sim o princípio da força vital. Sofreu neste mundo e nele se dilacerou – e criou com a sua arte um mundo próprio e novo, colorido e movimentado que contém tudo o que ele sabia da existência." Ingo F. Walther
Cypresses (Saint-Rémy 1889)


O amarelo forte dos grandes trigais europeus e dos vivazes girassóis ou mesmo dos sujos girassóis... Ainda sem fugir à cor, há o amarelo radiante do sol, dos belos e muitos sóis... Os altos ciprestes em contraste com o azul ou, como ele dizia em suas cartas, “dentro do azul”... Os imponentes e belos ciprestes aos quais ele comparava a obeliscos egípcios a fulgurar nos campos... Ah, os campos exuberantes, as noites singulares e estreladas... O homem e a sua fragilidade nas minas; os homens e suas profissões; os homens e a sua importância efêmera no mundo; o homem e seu fim imediato... Os simples e pequenos objetos; as flores; os grandes pessegueiros; as oliveiras; os lírios... Os matizes orientais que o impressionaram e suscitaram a imitação, que no fim foram além do objeto original – o descarte da mimese clássica pela interiorização da vida fulcral interior... A natureza morta, a natureza viva que pelas mãos desse artista se torna um ideal de existência; sua própria imagem reproduzida dezenas de vezes, em autorretratos singulares e multicores...
Quantos foram os entes que tocaram Vincent Van Gogh a ponto de fazê-lo transpor o seu sentimento, sua alma para telas que nos tocam tanto? Como as imagens de nosso mundo exerceram nesse homem fascínio e obsessão? Fora a loucura?
Cafe terrace on the Place du Forum, Arles, at night




Como as imagens de seu mundo transmutado em telas conseguiram e conseguem gritar tão alto? Que honestidade, brutalidade e visceralidade se escondem sob suas pinceladas enfurecidas e angustiantes? Como esse artista conseguiu transpor o que era visto no mundo dos fenômenos e sentido em seu ser para um novo mundo esculpido por meio da arte em suas obras? Como enxergar tudo isso e não se admirar?
Japonaiseire: Bridge in the Rain (1887)
Responder perguntas sobre a natureza da arte, sua criação, sua vida é algo que talvez jamais saibamos fazer de modo satisfatório, embora procuremos sempre bater nessas teclas. O fato é que a natureza de grandes artistas, a vida de grandes obras nos toca e, como crianças curiosas que ainda somos, tentamos sempre formular a pergunta sobre o porquê de tudo isso. O porquê, embora seja pequeno em composição vocabular, é vasto quando tentamos descortiná-lo... Suas ramificações também. Elas levam a histórias que nos surpreendem e nos ensinam – fazendo suscitar mais perguntas, pequenos móveis propulsores de questões.
Sem dúvida, van Gogh, pra mim e para um bom número de pessoas, é um suscitador de dúvidas e de admiração. Ao ser tocado por algo que não podemos saber o que de fato é, van Gogh nos tocou com suas telas, com o seu modo de apreender a realidade, e só nos resta a posição de observadores, muitas vezes questionadores, admirados de sua obra artística, extasiados com sua riqueza interior.
Vincent foi, incontestavelmente, uma grande mãe de entes: trouxe à luz mundos, pessoas, sóis, naturezas diversas que nos fazem parar e desligar das coisas do mundo. Sua verdade emergia através de suas pinceladas. Através delas, van Gogh nos leva a um penhasco e mostra-nos a vida e nos faz um convite ao conhecimento. Mais do que isso, faz-nos várias perguntas sobre o mundo, o outro e nós mesmos: é o convite ao conhecer; é a maiêutica; a epifania de um mundo novo.

Old tower in the field (Nuenen 1884)
Não faço ideia de quando foi que uma dada obra de Vincent conseguiu atrair minha atenção pela primeira vez – na verdade, não sei dizer de fato nem qual foi. Costumo acreditar que tal fato ocorreu há mais ou menos 10 anos. Sei que naquela época me tornei apenas uma das muitas admiradoras das telas Starry Night, Cafe Terrace (...) e, como não podia deixar de ser, de alguns dos muitos girassóis pintados por esse holandês que foi bastante incompreendido em seu tempo.
Still life vase with 15 sunflowers (Arles 1888)
Blossoming Almond Tree (Saint-Rémy 1890)
Particularmente, eu achava o artista Van Gogh e as poucas obras que eu conhecia fantásticos, mas nunca tinha pesquisado mais a fundo, até o dia em que eu conheci o site www.vangoghgallery.com Eu não sei exatamente, mas creio que fiquei uns 3 dias apenas olhando alguns materiais que ele havia pintado durante a sua vida, material este ricamente disponibilizado pelo website (vale a pena conferir com o tempo necessário). Foi ali que eu pude conhecer mais do trabalho desse artista genial. Depois, com o tempo, eu fui pesquisando em outras obras que foram fazendo com que eu, dia a dia, ficasse mais maravilhada com a arte produzida por ele.

Retrato de Père Tanguy (Paris 1886/87)
A fim de dar uma contribuição, trazendo a algumas pessoas um pouco da história de Vincent, resolvi elaborar um texto para falar um pouco da vida dele. Não há nenhum tipo de objetivo acadêmico aqui: o único elemento que me guia nesse instante é a vontade de apresentar um pouco da vida desse gênio holandês que eu, realmente, admiro. É bem verdade que, ultimamente, tenho tido vontade de dedicar uma parte de meu tempo para pensar na questão do gênio artístico na visão schopenhauerena relacionada à figura de Van Gogh. Mas isso é um trabalho para daqui um tempinho, até porque tenho de fazer isso da melhor forma.
Voltando ao objetivo que rege esse texto, vou deixar nas próximas linhas algumas informações sobre a vida desse pintor que muito me fascina. É como eu disse em um textinho anterior, onde eu mostrava algumas Caveiras pintadas por ele: a questão é que van Gogh é muito mais que um pintor de céus estrelados e exuberantes girassóis; mais do que isso, sua vida vai muito além de um episódio de loucura e de uma orelha cortada...
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Vincent Van Gogh (1866)
Vincent Van Gogh nasceu no dia 30 de março de 1853, em Zundert, uma aldeia no Sul dos Países Baixos (Holanda). Desde cedo, o pequeno van Gogh dava mostras de seu caráter pouco sociável. Gostava de passar horas olhando a natureza e apreciava caminhar sozinho pelos campos. Nenhum de seus cinco irmãos jamais o acompanhava – com exceção do jovem Theodore, mais novo que Vincent quatro anos, que desde muito jovem se torna seu grande amigo e confidente.
Theodore (irmão e amigo de Vincent Van Gogh)
A história de Vincent e Theo é bela; a amizade desses dois irmãos é algo que vale a pena conhecer a qualquer tempo, e tal fato pode se dar através da leitura da longa correspondência que os dois estabeleceram até a morte de van Gogh. Nesse sentido, vale a pena ler o livro Cartas a Theo (editado no Brasil pela Editora Martins Claret) e também a correspondência de Theo para van Gogh.
Eu imagino que esse textinho vai ficar grandinho... rsrs Acho que é necessário falar sobre algumas passagens da vida de van Gogh para que se conheça e entenda certas peculiaridades da vida desse artista.
A questão é que há muita gente que gosta de rotulá-lo simplesmente como o “pintor que cortou sua própria orelha”. Mas um fato, por mais estranho ou mesmo singular que o seja, não faz nenhum homem integralmente. Todo ser tem sua história: e ela -- nós bem o sabemos -- sempre tem muitos fios dispersos...  Junto com outros elementos singulares, esses fios ditosos constroem tecidos essenciais para que compreendamos o todo... São as linhas e os pequenos pontos que, amalgamados, nos servem de veículo para um entendimento maior... E a história de Vincent está afinada a essa ideia... Há muito lirismo escondido em passagens pequeninas da vida sofrida desse gênio... Há muita beleza nos tijolos complexos que constroem a existência desse pintor de mundos multicores... Há muita singularidade que emerge da razão em cinzas, manifestada bela e incontestemente em suas telas... sua iconoclastia às avessas -- tão criadora.  E tudo isso, em um mundo muitas vezes tão frio, é importante ser conhecido.
***

Starry Night over the Rhone (Arles 1888)
A arte sempre fez parte da educação do jovem Vincent, pois vários dos seus tios eram comerciantes de arte. Nesse sentido, não é de se estranhar que, desde cedo, Van Gogh comece a trabalhar em uma galeria de arte. Foi em Bruxelas, na Casa Goupil, que ele começou aos 16 anos a trabalhar e a ter contato direto com a arte. Logo começou a formar sua própria opinião sobre tudo que estava ali. Através de intensas leituras e muitas visitas a museus, vendo o que era feito naquele momento (não podemos esquecer que a Europa naquele tempo era um verdadeiro caldeirão cultural, com movimentos e artistas surgindo por cada poro das cidades), van Gogh foi se dando conta do universo artístico de um modo muito particular.
Com 20 anos, Vincent é enviado para uma sucursal da galeria Goupil em Londres e ali sua vocação se desabrocha. Inúmeras horas são passadas em frente ao rio Tâmisa, e centenas de esboços são construídos, algo que, por incrível que pareça, entristecia o jovem van Gogh, que não conseguia identificar nada de concreto em seus rascunhos e tentativas.
 É por essa época, dizem os especialistas na obra de van Gogh, que começa a surgir suas primeiras inquietações e angústias. O sentimento de inquietação e desamparo tomam conta de van Gogh e logo tudo isso desemboca em sua situação profissional, fazendo com que o jovem seja despedido de seu emprego. A partir desse momento, a história de van Gogh começa a apresentar inúmeros baixos. Isso porque os altos, na vida desse artista, para ser bem franca, foram bem poucos. O fato é que van Gogh decide que quer ser um pintor, mas ele não podia deixar de ganhar a vida. Diante disso, como conciliar as duas coisas? Dedicar-se somente à arte não seria loucura? E como faria para sobreviver?
Segundo alguns estudiosos, é nesse momento que van Gogh procura um plano B, ou seja, dedicar-se à religião. Assim como seu pai, van Gogh resolve ser pastor. Contudo, sua preparação é mínima. Seu dom com oratória é inexistente, mas mesmo assim ele insiste. Despedido novamente, decide ser missionário entre os pobres mineiros de Borinage. Para tal, van Gogh vai à Universidade fazer o curso que era necessário para trabalhar nas missões. Depois de todo o seu esforço, consegue uma missão de 6 meses e, entre aqueles homens que trabalham dia a dia, noite após noite debaixo da terra, Vincent visita os doentes, os reconforta, lê para eles o Evangelho.
Os comedores de Batatas (Nuenen - 1885)
As impressões dessa época podem ser vistas em inúmeros quadros, onde o jovem retrata os trabalhadores, os camponeses. Vincent vai se mudando de uma cidade para outra, à medida que é necessário às suas missões, contudo, por mais que sua intenção seja a melhor, ele não tem o dom da pregação, e seu comportamento diferente acaba assustando outras pessoas (nessa época, van Gogh se entrega à devoção mística, passa a viver numa cabana de tábuas, dorme na terra nua, usa apenas um camisão de soldado, cuida dos doentes com tifo, despojando até das suas próprias roupas para ajudá-los). Diante da reação de várias pessoas, sua missão não é mais renovada e Vincent fica perdido.
É ponto patente que nessa época, em meados de 1879, Vincent passa pelo período mais sombrio de sua vida.  Na edição brasileira da obra Cartas a Theo, há um pequeno texto dos editores da obra que diz que, nessa época de sua vida, van Gogh caminhava “aqui e ali, sob o vento do outono, sob o vento do inverno. Dormia à beira dos caminhos, em celeiros, debaixo de carroças.” Vivia apenas do pouco dinheiro que seu irmão e amigo Theo enviava.
Pietà (depois de Delacroix) (1899)
Theo lhe dava forças, encorajando-o a ser o pintor que ele queria ser. Então é nessa época, apesar de todas as dificuldades, que Van Gogh resolve aceitar o seu caminho, a sua natureza, dando-nos, se assim posso dizer, a oportunidade de conhecer o seu trabalho genial e visceral. Em uma carta dessa época, Vincent expõe a Theo suas angústias, seus medos e suas esperanças. Theo, tocado pela força das palavras de Vincent, se compromete a ajudar o irmão porque confia e acredita em sua vocação para a arte. A partir daí a amizade dos dois fica ainda mais forte e a correspondência entre ambos só aumenta. Para se ter uma ideia, não se passa uma semana sem que os dois não se falem.
O bom samaritano (Depois de Delacroix) -- Saint-Remy - 1890
Vincent anda por vários lugares: Etten, Bruxelas, Paris, Haia, Antuérpia, e passa a pintar e desenhar sem parar. É tocante ver que muitas vezes Vincent preferia não comer para ter algo para comprar suas telas e suas tintas. O dinheiro era muito curto, mas ele conseguia se administrar para literalmente alimentar-se de arte. Trabalhando constante e freneticamente, van Gogh vai se desenvolvendo cada vez mais. Em suas viagens, ele busca com sofreguidão o aprendizado de novas técnicas: em Paris, por exemplo, passa seu tempo nos museus, especialmente no Louvre. Lá, procura se exercitar fazendo cópias de quadros de Delacroix, à sua maneira - é claro. Depois começa a trabalhar ao ar livre, à maneira dos impressionistas que ele tanto admirava. É nessa época que van Gogh conhece Gauguin, que ficaria célebre tanto por sua obra, mas também pelo famoso incidente da orelha.

Texto jornalístico da época sobre o incidente da orelha
Particularmente, eu já ouvi falar de várias versões do incidente da orelha. Uns falam em uma prostituta como um dos móveis propulsores do acontecimento. Há até um texto escrito pelo próprio Gauguin a respeito do fato: “Incidente da Automutilação de Van Gogh”. Mas o ponto comum em todas essas “lendas” é que van Gogh desejava que Gauguin se instalasse perto dele e que ambos fundissem seus estúdios – isso porque um dos maiores desejos de van Gogh era a criação de um atelier em que grandes nomes da pintura se reunissem.
Gauguin demora a aceitar, mas depois se muda para Arles. Contudo, ambos os pintores são muito diferentes um do outro. Suas opiniões são diferentes, seus anseios, suas tendências estéticas, tudo os separa. Vincent, que já tinha seus problemas com depressão, crises de angústia e até paranoia, na noite de natal do ano de 1888, se lança sobre Gauguin com uma navalha, mas sai correndo quando o pintor francês se volta contra ele. Ao voltar para casa, Vincent corta uma orelha e a entrega (segundo uma das versões) para o policial que vem à sua casa logo após o incidente.
Depois desse episódio, Vincent é conduzido a um hospício. Lá, suas crises oscilam, entre idas e vindas. Por perceber em si a falta de constância no que tange à sua saúde mental, Vincent acaba se dando conta que o melhor é se manter internado, até porque as pessoas que moravam perto dele não queriam-no por perto (há até, para fortalecer essa resolução, a criação de um abaixo-assinado por parte de sua vizinhança para mantê-lo internado).
O famoso Starry Night :: Noite estrelada (Saint-Rémy 1889)
Apesar de estar doente, van Gogh não deixa de trabalhar em sua arte, que a partir dali começa a apresentar contornos expressionistas. Vincent, em Saint-Rémy, passa momentos de dor, de desespero, de melancolia, de calma – e em nenhum deles para de pintar. Em janeiro de 1890 um fato curioso ocorre: um crítico de arte publica, no Mercure de France, um estudo consagrado sobre sua pintura (pela primeira vez a arte de Vincent aparece em uma publicação). No mês seguinte, van Gogh recebe uma carta de Theo: este diz que um quadro havia sido vendido: O vinhedo vermelho (o primeiro e o único quadro vendido enquanto estava vivo).
O vinhedo vermelho (o único quadro que foi vendido durante a vida de van Gogh)

Vincent's bedroom in Arles (1888)
The church at Auvers (Auvers-sur-Oise 1890)


Em maio de 1890, Van Gogh sai de Saint-Rémy e fica feliz por poder encontrar Theo e sua família. Na casa do irmão, revê seus quadros (que estão por toda a parte – até mesmo debaixo de móveis) e é visitado por alguns amigos. Posteriormente, Vincent se instala em uma pensão.
Os dias passam, e suas companheiras, angústia e melancolia, voltam a ter com ele... Diante da presença desagradável, Vincent que já estava cansado de todas as suas crises, numa tarde resolve ir para o campo. Estava atirando nos corvos, quando, na presença de suas desditosas companheiras e já sentindo que uma nova crise se aproximava, atira em seu próprio coração. Contudo, o tiro desvia e se aloja em sua virilha. Van Gogh não fala sobre o acontecido com ninguém e volta para a pensão. Mais tarde, algumas pessoas que estavam no pensionato, algumas delas encarregadas pelo médico de Vincent de cuidar dele, percebendo a sua ausência, resolvem ir atrás dele: encontram-no prostrado e sangrando dentro do quarto. O Dr. Gachet, seu médico e amigo de Saint-Rémy, examina-o e constata que é impossível tirar a bala. Solicitado a dar o endereço de seu irmão, van Gogh não o faz. E só no outro dia é que Theo é avisado do acontecimento.
Wheat field with crows (o último quadro)
Theo não se conforma com a possibilidade da morte próxima do irmão, mas não há mais o que fazer – van Gogh não deseja mais viver. Nesse dia, van Gogh conversa o dia inteiro com o irmão em holandês. À noite, Theo deita-se ao lado dele, velando-o. À uma da manhã, do dia 29 de julho, Vincent murmura “quero ir embora”, e morre.
Depois da morte de seu irmão, Theo ainda organiza uma grande exposição com algumas de suas obras. Contudo, atingido por uma paralisia, Theo é transportado para a Holanda e morre, em janeiro de 1891 -- como pode se ver, apenas alguns meses depois do falecimento de seu irmão. Muitos falam que Theo morreu devido à tristeza por ter perdido seu melhor amigo. Os irmãos cuja amizade tornou-se legendária repousam lado a lado em Auvers-sur-Oise.
Os túmulos de Vincent e Theo, em Auvers-sur-Oise, França

A viúva de Theo, com certeza, é uma das pessoas responsáveis pela arte de van Gogh ter sido divulgada. Após a morte de seu marido, ela passou a organizar exposições, mesmo com pessoas falando para ela destruir “o lixo” deixado por Vincent. Com as exposições acontecendo, algumas pessoas já começam, com o passar dos anos, a comentar a obra de van Gogh. Em 1896, seminários são conduzidos em uma universidade da Holanda acerca da obra de Vincent. Assim, com pequenas exposições a obra do mestre do amarelo, laranja, verde e azul vai sendo conhecida Europa afora.
Entrance to the Public Park in Arles (Arles 1888)
Retrato do Carteiro Joseph Roulin (Arles - 1888)
É interessante para fechar essa reflexão sobre a vida de Van Gogh trazer à tona o ano de 1946, quando uma exposição itinerante foi feita percorrendo a Europa, suscitando um enorme entusiasmo. Para se ter uma ideia, em Estocolmo, foram mais de 165 mil visitantes. Em Amsterdam, foram mais de 300 mil espectadores; 500 mil pessoas na Bélgica. No ano seguinte, em Paris, o público, dia após dia, fazia filas gigantescas a fim de apreciar a obra de Vincent. Mais de 150 mil pessoas vão ao Tate, em Londres, apreciar as pinceladas nervosas de van Gogh nesse mesmo ano. Nessa mesma época, uma exposição é organizada em Nova Iorque, para um público de mais de 300 mil. Depois, a exposição segue para Chicago. Em 1953, o centenário do nascimento de van Gogh é celebrado nos países baixos. Congressos, seminários, palestras são realizados a fim de se discutir a arte de Vincent. Em Haia, são expostas mais de 280 obras de Van Gogh.
Wheat Field with Cypress (Saint-Rémy 1889)
No ano de 1958, a obra Jardim Público de Arles é vendida por 132 mil libras. Anos mais tarde, em 1990, Van Gogh, que durante sua vida teve apenas um quadro vendido e que passou todas as privações possíveis para poder comprar suas tintas e suas telas com dinheiro que seu irmão conseguia enviar, foi o objeto da maior transação no mercado de arte até então: um dos retratos do Dr. Gachet foi vendido para um milionário japonês por 82,5 milhões de dólares. Depois da morte do japonês, o quadro desapareceu. Reza a lenda que o quadro foi cremado junto com seu dono.
Retrato do Dr. Gachet (Auvers-sur-Oise 1890)

Vista da praia de Scheveningen (Scheveningen 1882)
Meu "textinho" poderia abordar ou

Japonaiserie: Oiran (after Kesaï Eisen) - Paris, 1887

tras questões (eu nem falei da vida complicadíssima de Vincent no campo amoroso, por exemplo), aliás, penso que vai ficar por conta da curiosidade  de quem gostou da história de Vincent ir atrás de mais coisas. De qualquer modo, espero ao menos ter contribuído em algo com essas linhas. Fazer com que uma pulguinha se levante e suscite uma dúvida era o objetivo dessa junção de palavras aqui presente. E se tal coisa acontecer, outras pessoas terão a chance de conhecer muito mais desse fabuloso artista, indo atrás de outras informações.
Então, é isso: conheçam-no e, sei lá, procurem conhecer outros. Vale a pena ver como certas pessoas lidam com o nosso mundo por meio das canetas, dos pincéis, dos instrumentos musicais e de tantos outros pequenos objetos. Elas podem nos inspirar muito. A arte é inspiradora...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Morte e Desinformação...

Skull :: Van Gogh (Paris 1887/88)



[...] Sabes
que morres todo o tempo
no ensaiar errado
que vai a cada instante
desensinando a morte
quanto mais a soletras,
sem que nascido, mores
onde, vivendo, morres.
[...]

Carlos Drummond de Andrade

 

O crítico literário Otto Maria Carpeaux, fazendo observações sobre a obra de Drummond, diz em uma passagem de sua História da Literatura que grande parte da poesia drummondiana não é construída em imagens, mas sim em conceitos. O fato é que, longe de ser uma poética imagética, que prima pelas imagens e seus significados, a poesia de Drummmond é construída sob a égide de grandes pilastras de ideias, questionamentos, filosofia e muito pensamento. Não que ela abandone a primeira, mas é fato que há uma afinidade dessa poesia com a verve filosófica de expressão, se assim posso dizer.

Para perceber tal fato não é necessário ir muito longe. Na vasta obra drummondiana, são inúmeras as “peças literárias” que compõem grandes indagações, recheadas de conceitos e elucubrações sobre os homens e suas peculiares e singulares existências.

No livro A falta que ama, Carlos Drummond de Andrade se debruça sobre temas que lhe foram bastante caros, como a precariedade da existência, a busca pelo amor, pelo sonho e pela vida. Como não podia deixar de ser, não faltaram em suas linhas reflexões pujantes, recheadas de conceitos e ideias sobre essa vasta temática.

Para tentar observar um pouco do que ali estava, vou deixar aqui um poema do qual eu gosto muito. Como toda grande peça literária, esse belo e instigante poema faz pensar sobre uma série de coisas. Acho que por meio da leitura crítica e pessoal, cada um pode tirar as suas conclusões... Só digo que, para mim, esse poema nasce a partir de uma dada tensão, que no fim não deixa de se mostrar como uma grande fusão. Aliás, desde o título, já se percebe uma espécie de bipolaridade que responde por um questionamento do eu poético em relação ao mundo e, sobretudo, em relação a si mesmo. Seria Tu? Ou seria Eu? No fim, penso que pode ser nós todos.

Pensando em temas de cunho pessimistas e, por que nao, niilistas no que tange às ideias, nessas linhas frias é possível ver nada mais que a verdade subjetiva do eu poético, a qual emerge de uma reflexão muito singular, irônica e angustiante.

Há a presença de um eu lírico discorrendo sobre a insatisfação em relação à vida, trazendo à tona, em tons gris, a grande questão da existência humana. Afinal, pergunta o eu lírico: que motivos a vida nos dá para a existência do ser humano? O fato é que está tudo trocado: ao invés de viver de modo pleno a sua própria existência, é a vida que vive o homem. Assim, ele é, nessa perspectiva, um ser passivo que não vive de fato.

A vida vence o homem em luta desigual. A questão é que, além de este morrer derrotado, ferrado mesmo, o homem morre sem informações acerca da sentença de “tua morte, lida antes de ser redigida”. Ou seja, antes de você nascer, já há uma sentença pronta (mesmo sem ter sido, concretamente, escrita ou devidamente estruturada e formulada). O tu (que não deixa de ser, em última instância, eu, você e todos nós) já está sentenciado à morte: é, em suma, o não viver; é o deixar a vida irracional te viver

Nesse mundo louco, para não dizer que não houve qualquer chance de defesa contra as adversidades existenciais, dão para esse “tu” um defensor totalmente inábil: um defensor que ora metia medo, ora extorquia amor (veja que até o amor, quando surge no poema, surge de modo estranho e negativo).  Sinteticamente, o homem está aí pelo mundo sempre a morrer no ensaiar errado... é o ato de morrer sem estar de fato morto: é, na verdade, o total desespero atuando na vida dos homens no grande palco da existência humana -- digo isso trazendo à cena algumas ideias de um filósofo dinamarquês do qual gosto muito: Kierkegaard. 

Sören Kierkegaard diz, em O Desespero Humano, que o desespero nasce quando “morremos em vida a morte de fato”. É, se assim posso dizer, o ato de facear e viver a morte sem estar morto fisicamente... 

Ah... sei lá, viu... lendo as linhas de Drummond, eu não consigo me furtar a essas muitas passagens filosóficas... Como diz um amigo, “o negócio é tenso”... é o tenso bom... A tensão que nos faz pensar e refletir.

Bom, eu vou parar por aqui... Fiquem com o poema e vejam se o eu lírico está ou não com a razão...

No fim, ao que parece, todos nós morremos desinformados...  Não podemos conhecer mesmo muita coisa e tudo em nosso mundinho é muuuito efêmero... que o diga a caverinha de Van Gogh (sim, ele foi muito mais do que um pintor de céus estrelados e vibrantes ciprestes)...

Skull with burning cigarrete :: Van Gogh (Antuérpia, 1885/86)

Tu? Eu?

Não morres satisfeito.
A vida te viveu
sem que vivesses nela.
E não te convenceu
nem deu motivo
para haver o ser vivo.

A vida te venceu
em luta desigual.
Era todo o passado
presente presidente
na polpa do futuro
acuando-te no beco.
Se morres derrotado,
não morres conformado.


Nem morres informado
dos termos da sentença
de tua morte, lida
antes de redigida.
Deram-te um defensor
cego surdo estrangeiro
que ora metia medo
ora extorquia amor.

Skull  :: Van Gogh (Paris, 1887-1888)




Nem sabes se és culpado
de não ter culpa. Sabes
que morres todo o tempo
no ensaiar errado
que vai a cada instante
desensinando a morte
quanto mais a soletras,
sem que nascido, mores
onde, vivendo, morres.


Não morres satisfeito
de trocar tua morte
por outra mais (?) perfeita.
Não aceitas teu fim
como aceitaste os muitos
fins em volta de ti.


Testemunhaste a morte
no privilégio de ouro
de a sentires em vida
através de um aquário.
Eras tu que morrias
nesse, naquela; e vias
teu ser evaporado
fugir à percepção.
Estranho vivo, ausente
na suposta consciência
de imperador cativo.



Foste morrendo só
como sobremorrente
no lodoso telhado
(era prêmio, castigo?)
de onde a vista captava
o que era abraço e não
durava ou se perdia
em guerra de extermínio,
horror de lado a lado.


E tudo foi a caça
veloz fugindo ao tiro
e o tiro se perdendo
em outra caça ou planta
ou barro, arame, gruta.
E a procura do tiro
e do atirador
(nem sequer tinha mãos),
a procura, a procura
da razão da procura.

Não morres satisfeito,
morres desinformado.

Carlos Drummond de Andrade 
(In: A falta que ama, 1968)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Respeito, Entendimento, Esclarecimento e Tolerância

Em meados do século XVI, o grande filósofo John Locke escreveu uma carta sobre a tolerância. Seu contexto histórico era outro, sua realidade era diferente da nossa, o Zeitgeist daquele instante tinha características bem distintas do momento que vivemos hoje, mas uma coisa que ali estava presente ainda se mantém nos dias de hoje: a natureza humana que, mesmo com a evolução de alguns bons anos, mantém certos caracteres, de certo modo, impassíveis ano após ano, século após século.

É inegável que a humanidade nesses belos 5 séculos passou por mudanças. Foram mudanças em diversos âmbitos. Mudanças culturais, mudanças econômicas, mudanças científicas que transformaram de diversas formas a nossa vida. Entretanto, ainda vemos certos comportamentos permanecerem rijos.

Resgatando o tema de Locke, manifestado em sua carta supracitada, acredito que falar sobre a tolerância, seja trazendo o contexto do século XVI, seja pensando nas mazelas que ainda vemos na nossa sociedade, é algo sempre atual e pertinente, até porque, ao que parece, a humanidade parece precisar ser recorrentemente relembrada sobre o que é o respeito às diferenças, lembrada acerca da tolerância – ente fundamental para a boa convivência em qualquer lugar do globo.

Em Carta acerca da Tolerância, o filósofo inglês John Locke nos mostra uma questão extremamente importante e que, infelizmente, é pouco trabalhada: ninguém impõe a tolerância. Locke fala do papel do magistrado e da impossibilidade deste impor através de decretos e lei a aceitação de determinados temas. Preso de certo modo a uma questão bastante importante da sua época – a religião –, o filósofo chama atenção para o fato de que é necessário respeitar as crenças dos outros sem forçar ninguém a partilhar nada sem sua vontade.

A questão fundamental é que pensar em tolerância é trazer ao cerne das discussões o esclarecimento. E o esclarecimento não é algo que se imputa a alguém através da força ou da lei. A tolerância nasce do entendimento. Ela é um processo racional que envolve, se assim posso dizer, a alteridade. É um processo de se colocar no lugar do outro e entendê-lo. E tal processo não pode ser imposto.

Em uma passagem que serve bastante para ilustrar o que estou pensando, Locke diz “confisque os bens dos homens, aprisione e torture o seu corpo: tais castigos serão em vão, se se esperar que eles façam mudar seus julgamentos internos acerca das coisas”.  O fato é que a tolerância, o respeito aos outros seres e o esclarecimento não se apresentam de modo algum quando há a presença da força e da irracionalidade. Para existir o respeito, é necessária uma boa dose de esclarecimento. E talvez seja isso que esteja faltando às pessoas quando elas discriminam, desrespeitam, humilham e ferem outros seres. O que é o bullying nas escolas e em outros tantos recintos e ambientes senão a falta de respeito? O que é o preconceito senão a falta de tolerância àquilo que é diferente? O que é a intolerância religiosa, cultural, pessoal senão a falta de coragem de se colocar na posição do outro e entender outro ponto de vista além do nosso?

As limitações que temos nos impedem de respeitar os outros seres humanos. A ignorância pura e simples nos prende a pequenos mundos egoístas e insensíveis, nos quais, muitas vezes, vivemos, achando que somos os maiorais. Os nossos pré-julgamentos, nossas opiniões infundadas e nossa falta de saber não nos permitem ver o lado do outro – consequentemente, respeitar ideias, outros modos de ver a vida ou distintas formas de lidar com as coisas se torna, para nós, algo impensável e inconcebível. Por tudo isso e por muito mais, acredito que a falta de esclarecimento é o pior mal que existe em nosso globo.

Voltando a Locke e a suas reflexões, nessa mesma carta vemos que o filósofo inglês chama atenção para o fato de que o esclarecimento, de modo algum, pode advir do sofrimento corpóreo. Indo um pouco mais além, acho interessante pensar (ainda que muito superficialmente) na questão do movimento Iluminista, que era designado pela palavra Aufklärung, que em alemão quer dizer esclarecimento.

O movimento iluminista tinha como postulado a ideia de que era necessário que o homem buscasse conhecer. Era necessário o movimento de sair de si mesmo para conhecer o mundo e as coisas, usando a sua própria razão – e não se sujeitando àquilo que os outros impunham. Pensando sub-repticiamente nessas ideias, penso que, para acender certas luzes e ver com maior nitidez as coisas que estão diante de nós, precisamos sair de nossos lugares, fazer certos movimentos e buscar uma certa “iluminação".

O fato é que, se quisermos pessoas mais tolerantes, não adianta forçarmos, criarmos leis, criarmos punições. Para termos pessoas mais tolerantes, precisamos de pessoas mais esclarecidas. Talvez, seja necessário desenterrar os princípios dessa Aufklärung e chamar atenção das pessoas de algum modo. Contudo, não basta jogar a responsabilidade apenas nos ombros de pais, mães, tios, tias, avós, professores, políticos. Todos os seres humanos, independente de formação, de classe social, de crença, de valores, precisam de mais conhecimento. É vital: para uma verdadeira era de Luzes, precisamos de pessoas mais esclarecidas.

Enquanto eu escrevo essas últimas linhas, fico pensando no paradoxo que envolve a questão da intolerância: ao mesmo tempo em que o remédio parece ser tão simples, o tratamento é tão difícil de ser posto em prática (novamente a velha querela da teoria e da práxis). Por isso, que chegue logo o tempo em que manifestos tomem forma e se tornem parte de nossa vida comum... Que discursos sobre o Esclarecimento sejam incorporados à vivência de todos e que o sapere aude resgatado por Kant, no Iluminismo, torne-se uma lei da consciência de cada um, para que as pessoas respeitem e entendam mais os outros seres. Que a intolerância seja solapada pelo saber de uma consciência coletiva mais esclarecida.
  
Sapere aude (ouse conhecer)! Tenha coragem para fazer uso da tua própria razão!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Passando para outra fase...



Não raro, quando algo ruim nos acontece, ficamos chateados e, de certo modo, lamentamos as coisas acontecidas. Não gostamos de sofrer, não gostamos de perder, não gostamos de ser feridos. Contudo, o que se observa é que são essas dores, esses pequenos mal-entendidos da existência que acabam nos fazendo passar para um nível melhor. São essas experiências que nos fazem conhecer mais de nós mesmos e do mundo (e olha que eu não me considero um ser pessimista).
Em um jogo de videogame, por exemplo, nenhum personagem consegue ir para a próxima fase se ficar passeando por lugares em que nada acontece. Na vida ou nos jogos que faceamos, a inércia realmente não ajuda de maneira nenhuma... Digo isso porque, há alguns anos, eu costumava ficar horas jogando Dungeon Siege, um jogo bem interessante em que você evolui à medida que ganha experiência. Lembro-me de um dia em que eu estava conhecendo o jogo. Tinha acabado de instalá-lo e, muito provavelmente, era a primeira vez que eu jogava algo daquele jeito. Lembro-me de passear por vários lugares e a questão é que nada parecia acontecer; até pensei que o jogo era idiota (afinal, é sempre mais fácil culpar os outros, não?).
Um dia resolvi prestar atenção em um caminho que havia no cenário: foi ali que, explorando o mapa mais conscienciosamente, descobri inúmeras coisas. Vilões, pequenos e grandes bruxos, insetos gigantescos, trolls e tantos outros personagens surgiram querendo destruir o pequeno mago que eu havia criado. Creio que meu mago bonitão, com a sua longa capa e seus medalhões e anéis de cura, morreu centenas de vezes. Lógico que era chato perder. Meu mouse quase foi jogado contra a parede dezenas de vezes, mas o interessante é que, a cada morte, eu parecia aprender algo a mais para usar depois. A fim de não passar por aquelas agruras novamente, um conhecimento era sedimentado. O fato é que amei esse jogo por muito tempo... Com certeza não é o melhor desse gênero, mas certamente me ajudou a enxergar certas coisas meio nubladas e, sobretudo, passar um tempo de qualidade (estudando – era em inglês – e me divertindo).
Pensando nessas questões e lembrando histórias de amigos, passagens literárias, quadros, músicas, vivências, pergunto: o que é nossa vida senão essa passagem por experiências, essa mudança de fases? Acredito realmente que, em sua grande maioria, as experiências são mesmo ingratas e dolorosas, contudo como fica a sensação de tê-las vencido? Por que não damos valor aos pequenos trolls que matamos diariamente ou mesmo vez ou outra? Por que não valorizamos quando mudamos de level?
Nossos inimigos são inúmeros, e eu penso que o maior de todos somos realmente nós mesmos. Nós e nossas inabilidades. Nós e a nossa falta de coragem. Nós e o movimento de nos auto-sabotar em tantos caminhos do grande mundo. Acho que, quase sempre, somos os responsáveis por aquela bela venda nos olhos que orna a nossa face caiada. Por essas e tantas, nos tornamos seres incapazes de ver que atrás dos pequenos bruxos que nos perseguem, atrás de nossas paranoias se escondem possibilidades grandiosas de autoconhecimento e mais experiência para driblar certas coisas que achamos complicadas.
Talvez, aquele troll horripilante, transvestido de chefe ou de vizinho, está indicando uma ponte; uma travessia rumo à criação de um ser mais completo. A grande questão é que, por medo, por comodidade, é mais fácil fugir ou ficar de longe blasfemando do que enfrentar nossos fantasmas...  Por certo, deveríamos ser um pouco mais como aqueles personagens que muitas vezes não levamos a sério. Afinal, é desviando de uma bolinha aqui, subindo em grande amontoado de tijolos, dando saltos, indo em frente, suando a camisa e enfrentando o destino que nos tornamos aptos a ir além do que somos agora. Não há como refutar... É fato: para outras fases acontecerem é necessária a nossa expressiva atuação no mundo dos fenômenos... A questão é internalizar isso. 


Tínhamos que aprender mais com o Mario
Eis aí a capa do meu saudoso joguinho

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Beleza Suja: GRUNGE

Capa do DVD brilhante do Unplugged do Alice in Chains

Som conscientemente sujo, guiado por guitarras distorcidas e vocais exuberantemente arrastados e melancólicos; muitas vezes, um som liderado por violões que, desplugados, juntamente com outros instrumentos, fazem pensar e questionar a vidinha tosca que levamos. Talvez essas linhas não digam muita coisa, uma vez que é primordial mesmo ouvir, sentir e se deixar levar pelo som das guitarras, baixos e baterias. Contudo, as palavras aqui servem para, de alguma forma, homenagear um estilo de Rock que eu, particularmente, reverencio com toda a paixão existente em mim: o Grunge.
Foi nos fins dos anos 80, quando a cena rockeira via a manifestação do Glam Rock, com toda a sua purpurina e sua grande (para não dizer quase total) falta de conteúdo, que alguns jovens de Seattle e outras cidades vizinhas, nos EUA, começaram a apresentar o resultado do som feito em suas garagens. Foi assim que, de um grande caldeirão frio, melancolia, crítica ao vazio existencial, autocrítica, solidão, vazio e tantos outros temas e sentimentos acabaram - quando elevados a uma condição musical sem igual - por emergir e mudar a cena rock de uma geração.
Talvez não seja nenhum exagero meu dizer que os jovens participantes desse momento único em nossa música, mundialmente falando, tivessem um parentesco com ideias existencialistas. Pais de um novo momento no rock mundial, esses garotos e garotas trouxeram, à La Kierkegaard, muito do temor e do tremor que a cena musical daquela época estava precisando. Falando das introversões humanas, de tantos seres que vivem dentro de caixas (Man in the box - Alice in Chains); salientando a necessidade de ser um pouco mais verdadeiro nesse mundo de aparências (Come as you are - Nirvana);  falando da relação entre as pessoas em um mundo em que os seres se tornam cada vez mais distantes um dos outros (Brother - Alice in Chains) ou mesmo denunciando situações em que pessoas ignoram umas as outras (Jeremy - Pearl Jam) ou ainda salientando amores e outras tantas angústias, tão particulares e ao mesmo tempo tão universais, esses músicos conseguiram atingir a um só tempo aquele lugar onde aquilo que é só nosso acaba por encontrar o que pertence a todo o mundo. 
Nirvana, Temple of the Dog, Alice in Chains, Pearl Jam, Soundgarden são algumas das bandas que durante um curto, mas intenso período, fizeram muitos jovens pensar e refletir acerca de si mesmos e do mundo. Trazendo como tema primordial as angústias de uma geração, esses jovens mudaram as suas existências, mudando, concomitantemente, a de muitos outros.
Nesse nicho do rock, muitos sentimentos fortes e autênticos se encontraram. Isso porque de dentro daquilo que chamamos Grunge (palavra que deriva de Grungy, algo como sujo em inglês) emergiram poetas que, unindo palavras a um som melancolicamente raivoso e desafiador, conseguiram fazer com que muitos a partir de letras pesadas sentissem nas profundezas dessas canções o Zeitgeist de uma época em que muita coisa se mostrava vazia.

Expondo as feridas de um tempo, sem tentar disfarçar ou ignorar o mal-estar de nossa civilização, este Rock autenticamente Sujo limpou a alma de muito jovem que ansiava por ouvir, manifestar e  mesmo cantar algo significativo, algo que traduzisse seus anseios, suas dores e suas aspirações.

Embora eu não tenha a pretensão de parecer grande conhecedora de música (até porque não conheço mesmo muita coisa), acredito que, para conhecer um pouco mais do som visceral feito por esses jovens, é interessante ter acesso a algumas obras capitais, como o tão aclamado Nevermind do Nirvana, o Ten do Pearl Jam (fantástico!), o primeiro álbum (homônimo) do Soundgarden e o Core do Stone Temple Pilots, além de outros cds de outras tantas bandas bacanas (a lista é grandinha!). É necessária aquela paciência para conhecer essas belas bandas. O resultado é positivo, com toda a certeza. É só ir conhecendo um pouco mais da discografia dessa galera e ir abrindo caminho.

Antes de fechar meu textinho, é claro que eu não podia deixar de citar a minha banda favorita desse movimento. Não a citei no parágrafo anterior, porque para mim a banda de Layne e Cantrell merece um espaço mais individualizado. Talvez, eu até tente escrever sobre eles no futuro... Veremos.

A questão é que houve um tempo em que meu coração só batia por Axl, Slash, Duff, Matt... Eu pensava mesmo que um dia eu teria, tal qual Ellen Jabour, uma chance com o Axl Rose. Brincadeiras à parte, para a minha sorte (afinal, eu não tenho mesmo cacife para concorrer com a modelo supracitada), um dia caiu na minha mão um cd de uma banda que mudou a minha existência: o cd era do Alice in Chains.  Eu tinha 16 anos e hoje vejo que o som dessas pessoas abriu a minha percepção para outras matizes do Rock. Ele foi a minha ponte; o meu rito de passagem no campo das guitarras.

Todos os álbuns dessa banda me tocam profundamente, mas um em especial tem todo o meu carinho, por isso eu sempre vou recomendá-lo: o Unplugged. Recomendo-o, primeiramente, porque foi a partir desse disco que conheci o que era Grunge e passei a explorar outros sons e, segundo, porque, sem muito para refutar, eu só posso dizer que ele é Perfeito. É aquela coisa: só ouvindo dá para entender o que eu estou dizendo. Que me desculpem os fãs do Nirvana. Eu até entendo a singularidade do Unplugged feito por Cobain e companhia (entendo mesmo!), contudo, na boa, com violões, baixo, bateria e belos e excelentes vocais, nada soou tão harmônico, instigante e fantástico como o show realizado pelo saudoso Layne, por Jerry, Inez e Kinney, no Brooklyn Academy of Music's Majestic Theatre. Vale a pena mesmo conferir. ; )

Tudo isso e mais um tanto é grunge: uma beleza suja, bruta e ao mesmo tempo comovente e visceral, que emerge das profundezas do homem e encanta sem o menor esforço... Veja Layne e companhia cantando e entenda o que eu quero dizer. Salve grande Layne!


Maravilhoso CD: dá para ter uma bela palhinha do que é o Pearl Jam. Vale a pena curtir esse som!
Grande CD do Soundgarden. Dá-lhe Chris!
Não precisa nem dizer, né? Este é um "crássico"!